Eu tive de ir ao sótão procurar uns jornais antigos.
Como toda a gente sabe, o sótão é o lugar da casa que é limpo. Nunca se convida as visitas para ir ao sótão. Nunca se utiliza o sótão, cheio de baús, malas e caixotes, para dar festas de aniversário. Até talvez não fosse má ideia...
Eu a entrar no sótão, e a esbarrar com uma teia de aranha.
-Que falta de consideração - barafustou a aranha. Uma teia que me deu tanto trabalho a fabricar!
-Foi sem querer. Desculpe - disse-lhe eu, um tanto encavado.
-Quem estraga, arranja - gritou-me ela.
-Mas eu não sei tecer teias de aranha...
-Então, não tivesses rasgado. Quem estraga, arranja - insistiu ela.
Não tenho feito outra coisa. Pedi instruções a um tecelão, a uma bordadeira e a uma senhora que trabalha em malhas. Cada uma ensinou-me o que sabia e eu, mal ou bem, com uma agulha muito fininha e um fio de nylon ainda mais fino tenho passado os dias no sótão a cosipar a teia da dona aranha.
Com tantas responsabilidades na minha vida, tantas histórias para contar, e sucede-me a mim uma destas.
Ainda se a aranha se calasse, mas não se cala:
-Que falta de jeito. Que horror.
Mais dia, menos dia, também eu me enervo e mando a aranha contar histórias, em vez de mim. Sempre queria ver como é que dava conta do recado.
António Torrado

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